Silverblue, vale a pena?

Vou tentar explicar aqui o que eu entendo sobre a proposta do Fedora Silverblue, também pode servir de resposta para quem pergunta “vale a pena usar? o sistema é pronto para o uso?” etc…

Breve introdução:

O Fedora Silverblue é um sistema operacional de desktop imutável. O objetivo é ser extremamente estável e confiável. Ele também pretende ser uma excelente plataforma para desenvolvedores e para aqueles que usam fluxos de trabalho focados em contêiner.

Primeiramente, esta versão emergente no Fedora é mantida por uma equipe dedicada muito pequena, comparado a versão Workstation por exemplo. Um core em torno de 27 desenvolvedores/mantenedores do Fedora. Isso quer dizer que, ainda tem pouca documentação e o progresso nas suas metas poderia ser muito mais rápido. Por outro lado, a maneira de como o Silverblue é feito, proporciona menos “mão de obra” ou seja, é muito mais fácil mantê-lo com menos pessoas. Pois usam infraestrutura e pacotes do Fedora, incluindo tecnologias do CoreOS/AtomicHost e Workstation (também são tecnologias usadas pela RedHat). Assim como o Workstation, focado no desktop. Então podemos dizer que estes 27 dev’s são os que mantêm o Silverblue diretamente, pois indiretamente todo o projeto também mantém o Silverblue.

Sobre algumas tecnologias usadas no Silverblue, isto serve para termos uma noção de que existe empresas/comunidades trabalhando nelas, além do próprio Fedora.

GNOME

É um projeto de software livre abrangendo o ambiente de trabalho GNOME, para os usuários, e a plataforma de desenvolvimento GNOME, para os desenvolvedores. O projeto dá ênfase especial a usabilidade, acessibilidade e internacionalização.

A comunidade de desenvolvimento do GNOME conta tanto com voluntários quanto com empregados de várias empresas, inclusive grandes empresas como Google, RedHat, Canonical, Collabora, Igalia, Mozilla, Intel entre outras. Também possui sua própria fundação ( The GNOME Fundation) Por sua vez, o GNOME é filiado ao Projeto GNU, de onde herdou a missão de prover um ambiente de trabalho composto inteiramente por software livre.

Ostree

Nasceu através do projeto GNOME Continuos, e é mantido juntamente com a RedHat, Endless e GNOME, é basicamente um sistema para atualização de outros sistemas, tem como característica a atualização atômica. Isso significa em uma operação crítica, como um update, não haverá corrupção no meio processo. Ele irá atualizar com sucesso, ou não será feito a atualização. Sem a possibilidade de falha parcial.

É usado atualmente no EndlessOS, Flatpak, Fedora, CentOS e Redhat.

Flatpak

Criado por Alexsander Larsson (trabalha na RedHat) é uma estrutura de distribuição de aplicativos para desktop Linux. Tem como objetivo ser usado por todo tipo de programa ou app (incluindo proprietários). É independente de distribuição, pois é compatível com praticamente todas. Também não necessariamente centraliza a distribuição dos programas.

É o que chamam de aplicativos tipo contêiner, pois rodam em sandbox de forma a não interferir no sistema operacional base. É tipo como o Android funciona hoje em dia.

Paradigma do Silverblue

O Silverblue não é o primeiro a prover um “sistema imutável”. Ele basicamente faz a separação mais clara do Sistema base / programas do usuário. Tal como Android, MacOS, EndlessOS, ChromeOS…perceba que fazer a “limitação” onde o usuário não lida com partes críticas do sistema, não é algo novo, porém no “mundo Linux” (falo das distribuições Linux tradicionais) isto é muito incomum. Já que em sua essência, nasceu por conta de pessoas que, de fato, precisam lidar com partes críticas do sistema (alguns developers, SysAdmin’s…)

O Silverblue tenta trazer para o usuário, o poder que ele acha que deveria ter. Ou seja, instalar programas (talvez DE’s?) sem necessidade de privilégios de “super usuário” ou sem correr o risco de quebrar seu sistema instalando lib’s/pacotes atualizadas e testados em momentos diferentes.

Em outras palavras, se algum app que você instalou parar de funcionar, não afeta seu sistema todo. Na parte do sistema, se os mantenedores mandarem uma atualização que tenha algo quebrado (o que é raro mas pode acontecer) você poderá voltar ao estado anterior facilmente, apenas reiniciando e escolhendo a opção anterior no grub, ou usando o rpm-ostree rollback. Por isso chamo de “Fedora inquebrável” obviamente, uma brincadeira, pois nada é a prova de falhas.

Em geral, distribuições Linux e também alguns desenvolvedores de programas para o Linux desktop, por padrão induzem o usuário a lidar com o poder de “super usuário” ou usar o sudo/root. Tendo muitas vezes que instalar lib’s/pacotes no sistema base, algumas vezes até substituindo aquelas lib’s testadas pelos mantenedores do seu sistema, por uma provinda do desenvolvedor do programa. As vezes a maneira que o programa foi projetado, é apenas “intrusiva” no sistema, forçando o usuário a usar root (exemplo:módulos de terceiros, drivers em geral)

Por isso falei que o Silverblue “tenta”, pois não creio que ele consegue fazer isso tão bem quanto o Android como exemplo. Muito por conta da cultura já criada no desktop linux.

Perceba, não acho que a ideia de sistema imutável + aplicativos sandbox/container seja o “correto” para um sistema operacional, apenas uma alternativa que pode ser viável para muitos usuários, assim como é em outros sistemas operacionais.

Características pontuais sobre o Silverblue:

Pacotes 32bits:

Hábito comum é instalar pacotes 32bit no sistema 64bit, como: wine, steam, lib’s de driver de vídeo, pcsx2…

No Silverblue o rpm-ostree (no momento) não instala pacotes 32bit. Para usar estes programas terá que usar flatpak’s (confira alternativas ao wine via flatpak), appimage, snap ou então (em muito último caso) em ambiente principalmente direcionado a desenvolvimento, o toolbox (ambiente conteinerizado).

Módulos/Drivers de terceiros

Já se pode instalar driver Nvidia, virtualbox…mas sei que alguns drivers de impressoras não são compatíveis, por exigir mudanças em partes críticas do sistema, na qual está imutável. Existe outros programas que dependem de módulos de terceiros no sistema, mas não tenho conhecimento, se você sabe de algum, por gentileza, me informe.

Instalação de pacotes/programas

Basicamente, vem com 3 opções de instalação de programas:

Flatpak

a primeira opção para programas em GUI. Trás o repositórios flatpak do próprio Fedora por padrão.

Toolbox

a primeira opção para programas em CLI, desenvolvimento, debugging tools etc…

rpm-ostree install/Package layering

A ferramenta rpm-ostree é usada para atualizações do sistema base e também para instalação de pacotes “ao lado” da imagem imutável/core do sistema. Por padrão, o sistema opera no modo de imagem pura, mas as camadas de pacotes(layered packages via rpm-ostree install nomedopacote) são úteis para coisas como libvirt, drivers, etc. Porém também pode ser usado para instalação de apps GUI/CLI. Detalhe importante, a cada pacote instalado via rpm-ostree, será necessário reiniciar o sistema, para entrar com a nova imagem ostree criada com os novos pacotes instalados.

Duallboot / particionamento

No momento (f30) não tem total funcionalidade para duallboot, e não é possível usar o particionamento do sistema da maneira que você quiser, é recomendado usar a opção automática. Estão trabalhando para oferecer uma melhor funcionalidade com duallboot, porém o particionamento sempre terá certas limitações.

Fiz apenas um teste em VM (GNOME Boxes) onde fiz instalação do Windows 10 e logo a após no mesmo HD virtual o Silverblue. Ocorreu tudo bem, sendo que a instalação é tipo MBR (não UEFI) mas outros usuários não tiveram boa experiência com instalação UEFI.

Em meu pc tenho duallboot porém com HD’s separados é totalmente funcional como qualquer outra distro.

Limitação na modificação do sistema

Basicamente, só poderá modificar o /var e /etc. Veja a documentação para entender mais sobre a sua estrutura de diretórios.

DE’s / Ambientes de desktop

Por padrão o Fedora Silverblue vem apenas com GNOME (por enquanto) mas mostro neste artigo, que a comunidade está preparando novos branchs para outras DE’s prontas, porém já é possível usar fazendo rebase(quer dizer que não vai misturar pacotes de 2 DE’s em uma imagem) para estes branchs. Outra possibilidade (uso atualmente) é de instalar via rpm-ostree, pacotes de outras DE’s para ter ao lado do GNOME, isto vai misturar os pacotes das DE’s, porém tenho o XFCE, que precisa de poucos pacotes para ser usável. Sendo assim, alterno no login (GDM) entre GNOME/XFCE, pois são duas DE’s que gosto.

Snap’s

Não será possível usar snaps “–classsic”, pois dependem de um link simbólico a onde não é possível inserir no Silverblue, por conta da imutabilidade. A maioria do snap’s não necessitam disso.

Concluindo, minha opinião sobre se é recomendável para iniciantes em geral?

Não, prefiro recomendar distribuições com maior documentação e principalmente foco em iniciantes, como LinuxMint, EndlessOS, Manjaro…o Fedora como projeto, não foca em usuários iniciantes. Isso não quer dizer que apenas usuários experientes conseguirão usar.

Minhas observações de uso ou pontos fracos que percebi/me importo:

  • GNOME Software e GUI para lidar com rpm-ostree: precisa de melhor experiência instalando pacotes via rpm-ostree.
  • Velocidade de download: já foi melhorado muito, e creio que de acordo com que o projeto crescer, vão otimizando mais a infraestrutura e os canais do Silverblue.
  • Mais automatização na instalação do Driver Nvidia: Creio que deveria ser tão facil quanto o Workstation, pelo menos.
  • Falta documentação: tipo de coisa que aumenta naturalmente com o tempo.
  • Não tem Spins: versões com outras DE’s estão nos planos. No momento via Kinoite
  • Precisa de flatpak’s instalados por padrão: também está nos planos adicionar o flathub como opção de repositórios de teceiros na GNOME Software.
  • Precisa aumentar repositório flatpak do Fedora e trazer alguns por padrão: está aumentando a cada dia, mas ainda são poucos comparado a todos que poderiam ter. Sendo que os flatpak’s do Fedora são gerados “baseados” nos seus .rpm’s.

Eu fortemente recomendo o Silverblue para quem gosta de todas as tecnologias que citei aqui neste artigo, e queira contribuir com o projeto, eu costumo reportar bug’s, ajudo o que posso em grupos do telegram como:

https://t.me/flatpaksnapappimage

https://t.me/fedorasilverbluebrasil

neste blog, no youtube etc…

Para reportar bug’s do Silverblue, pode-se usar o mesmo bugzilla do RedHat, usado pelo Fedora.

Óbviamente destacando o “Silverblue” na descrição dos report’s:

https://bugzilla.redhat.com/

Também existe um repo no Github:

https://github.com/fedora-silverblue/issue-tracker

Fórun para ajudar, tirar dúvidas, ensinar etc..:

https://discussion.fedoraproject.org/

Listas de discussões do Fedora:

https://lists.fedoraproject.org/archives/

Além do github do Flathub, que deve ser massivamente usado principalmente por usuários do Silverblue:

https://github.com/flathub

Viu algum erro ou gostaria de adicionar alguma sugestão a essa matéria? fastos2016@gmail.com

Um comentário em “Silverblue, vale a pena?

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  1. É isso! Acho que é esse o sistema que eu estou procurando. Simples, moderno e rodando o gnome em toda a sua glória. Se Steam em flatpak funcionar corretamente juntamente com o driver da minha placa de vídeo está ótimo. Tudo que eu uso esta disponível nesses formatos de contêiner mesmo.

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